sábado, 12 de maio de 2018

Fractais

Essa semana que passou foi uma montanha russa emocional.
Comecei a semana cansada. Terminei de dar aula no turno da tarde sentindo-me como se tivesse dado aula a semana toda e já estivéssemos na sexta-feira. .
Na 3 feira, dia 08, foi o aniversário de meu pai. Meu pai fez 75 anos. 75 anos. É tempo. É muito tempo. Meu pai vivenciou o final de uma guerra mundial, viu outras como a da Coréia, a do Vietnã, a do Golfo. Viu países nascerem e morrerem. Viu o homem chegar na lua. Viu a construção e a destruição do muro de Berlim. Viu com assombro o surgimento da TV e agora domina as redes sociais. Viu nosso país sair de uma economia totalmente agrária e se transformar em uma potência industrial. Viu esse país sair de um governo populista e democrático, para uma ditadura militar, viu o pais ser reaberto democraticamente. Viu o governo de um homem do povo para o povo. Viu a violência urbana quase chegar na estratosfera. Sofreu por inúmeras vezes a violência urbana.
Teve 4 filhos, adotou como seu o meu irmão mais velho. Está há 20 anos viúvo. Cruzou um oceano e realizou o sonho de caminhar por Paris. Ele fez tanto, ele viu muito.
 Eu olho seus cabelos brancos, seu jeito serelepe e ativo e peço que o tempo passe devagar -  despacito -  para que eu possa encharcar a minha memória da sua risada, das suas piadas e dos seus sorrisos. Que eu possa mergulhar na sua história, na minha história e na dos meus irmãos contada por ele aos meus sobrinhos.
Quero minha memória tomada de lembranças, de cheiro de churrasco, de gosto de chimarrão ou da batida de banana com Nescau, de manhãs de domingo ouvindo e dançando bolero com minha mãe, comigo e com as minhas irmãs. Quero reviver as férias em Cidreira, as brincadeiras nas dunas de areia, as pescarias na lagoa. Quero que o tempo passe devagar, despacito. 75 anos é muito tempo. Me assusta a ideia de que ele está mais perto do fim.
Essa semana também foi difícil pois antecede o domingo do dia das mães. E já são 20 anos de saudades. Às vezes me pergunto onde foi parar esse tempo se a saudade que sinto dela é tão presente e latente. Eu me despedi dela hj pela manhã e logo mais a noite vou reencontrá-la. Me sinto em um looping de tempo, em algo meio que randômico esperando o dia  passar para ela voltar pra casa, pra eu voltar pra casa e nos reencontrarmos e terminar de discutir o livro do Paulo Freire.
E esse danado tempo não passa, estacionou, e o único consolo é saber que o reencontro é certo.
E dentro de mim chove uma garoa fina e gelada, só para lembrar que está lá, como um grito sem barulho, seco.
Penso nos meus pais, penso nos meus irmãos e penso mim e me vem a teoria dos fractais. Somos o pequeno pedaço de um todo fragmentado. E, ao mesmo tempo, somos um pequeno fragmento isolado, inteiro, completo que reproduz a ideia do todo.
Carrego em mim o todo dos meus pais, mesmo eu sendo um fragmento desse todo. Mesmo eu sendo um fractal.  Minha história não é linear, ela é cacos da história de minha mãe, de meu pai, de meus irmãos e dos meus parentes. Ela é um caco da minha memória e das memórias que antecederam a minha existência.

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