sábado, 30 de junho de 2018

Um misto de ferocidade com esperança

Sei lá por onde começar este post. Sei lá mesmo. Tô um misto de saco cheio com esperança. 
Um misto de ferocidade com risada, sem cair no desespero. 
A frase célebre da Simone de Beauvoir, de que ninguém nasce mulher, torna-se mulher tem me feito pensar muito, e me deixado com raiva e me deixado com esperança. 
A compreensão de que ser mulher é uma construção social, atravessada por relações de poder tem se agigantado dentro de mim. E eu bem tolinha, 10 anos atrás, achando romântica a frase da Beaver. Beaver era como Simone era "carinhosamente" chamada pro Sartre. E, puta que pariu, que merda ser mulher do Sartre. Ela não pode ser apenas a mulher, ela precisa se tornar A mulher, para ser a companheira do filósofo existencialista. E porque a recíproca não poderia também ser verdadeira?
Todos os dias somos atravessadas por uma série de necessidades para que nos tornemos mulher e que enche o saco: use saia, passe batom, não sente dessa forma, tenha filhos, limpe a casa, seja reservada, fale baixo, se respeite! Socorro!!!
A própria Simone sofreu na pele a forma de ser relegada a um segundo plano, por exemplo, quando ela e Sartre concorreram a uma vaga no mestrado e ele ficou com o primeiro lugar. Não venha me dizer que foi apenas uma questão intelectual e não de atravessamento do gênero. E isto me emputece, me enfurece! 
Na minha turma da Filosofia, 62% dos que desistiram do curso são mulheres. Se você concordar que é pela capacidade intelectual, perdeste a amiga!
Porque as mulheres abandonam mais? Certamente é porque precisam conciliar família, maternidade, trabalhos domésticos, carreira, estudo. Não conseguem. Não somos as mulheres maravilhas que querem que sejamos. Não estamos com o cabelo impecável, a maquiagem perfeita, a unha pintada, a perna depilada, o conhecimento perfeitamente construído e sempre pronta para atender com rapidez, atenção, educação, prestatividade aos homens. E aí tem o discursinho irritante de homens brancos, heterossexuais e cristãos que dizem "não haver" distinção de gênero! PHOOOHHAAA!
Uma colega de escola relatou uma conversa com alunas, contando que, se o traficante da comunidade pedir pra "ficar" contigo, não podes negar. Oiiiii???? Mais uma vez a mulher é submetida, tolida, cerceada pelo desejo do homem. A colega relatou que meninas evitam sair de casa para não serem desejadas... 
E liberdade, substantivo tão caro para humanidade, só sofre flexão no masculino. 
Na apresentação de seminário na faculdade (Filosofia), uma colega citou algumas perspectivas bem interessantes que vão ao encontro do doutorado. Fui conversar com ela, trocar impressões e anotar algumas bibliografias que ela havia citado. Do nada um colega se atravessou na nossa conversa. Falando de outro tema, de outro assunto. Na verdade vindo a contestar uma fala que havia feito anteriormente. Em um desrespeito total a minha opinião, a situação em si e impondo a sua opinião como verdade. Ele pode perfeitamente discordar de minha opinião. O debate é positivo e necessário. Mas há "valores" (não sei ao certo se é esta palavra, precisava ler um pouco mais sobre isto, Foucault fala em discursos)  que estão tão cristalizados, engendrados na nossa cultura que permite que um colega se atravesse assim na conversa de duas mulheres, que interrompa a nossa fala e nos imponha a sua verdade. Na ocasião sinalizamos para o colega a sua atitude. Ele não teve, talvez, o alcance da reflexão, mas respeitou a nossa solicitação.
Algo semelhante ocorreu  no programa televisivo Roda Vida que entrevistou Manuela D'Ávila, pré-candidata pelo PCdoB à presidência da República. Na situação da Manuela, choveram críticas ao programa e aos participantes, pela atitude machista, desrespeitosa e limitada dos entrevistadores. 
E dá uma esperança, porque já é possível observar e apontar essas situações, elas já geram desconforto e já são confrontadas. Talvez há 20 anos atrás isto não aconteceria. Um dos argumentos poderia ser o advento das redes sociais, mas essa é uma discussão para outro post. O que dá esperança é que atitudes machistas estão sendo sinalizadas e combatidas de uma forma mais ampla e eficaz.
E meu coraçãozinho enche de alegria e amor quando vemos jovens meninas romper com isto, existindo pela sua essência e não apenas pela sua condição de ser mulher. De se tornar mulher e ocupar o seu lugar de direito ao sol. Meninas que jogam futebol, que são feras nas Ciências, na Matemática, na Filosofia, em Programação Computacional, na Medicina, na Engenharia. Meninas que ocupam espaços tão tradicionalmente reservado para homens. 
E elas estão aí rompendo, questionando, indagando, contrapontando, produzindo novos conhecimento e novas epistemologias para uma nova sociedade. Para que, em um breve futuro, com maior igualdade de gênero, com respeito basilar aos direitos humanos, possamos pleitear as mesmas condições. 
E quando vejo essa gurizada arretada me parece que isto não está tão longe do horizonte. 
E a esperança retumba feito bateria dentro do peito! 

sexta-feira, 29 de junho de 2018

A Autoridade

A autoridade 

Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saíam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.
Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.
Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.
Eduardo Galeano

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Do jeito que elas querem

Acabei de chegar do cinema.
Fomos assistir Do jeito que elas querem, direção de Bill Holderman. A princípio e, pelo o nome, achei que o filme seria fraco. Mas nas primeiras cenas a risada é certa.
O filme conta a história de 4 amigas que há 40 anos se encontram todo o mês a fim de discutir um livro literário, o clube do livro (a ideia me seduz muito: tenho um grupo de amigas que religiosamente há 3 anos nos encontramos mensalmente!).
Uma das personagens, interpretada por Jane Fonda, sugere que elas leiam 50 tons de cinza de E. L. James. Fica-se ressabiado de que o filme vá girar em torno disto e que caia no nicho mais erótico/comercial. A verdade que o livro traz a essas mulheres (como trouxe para mais de 50 milhões de leitoras) a possibilidade de romper com paradigmas cristalizados. Aí talvez alguns podem pensar que esse seja um filme para mulheres encalhadas. Grande engano. 
O filme aborda muitas coisas, mas traz luz a uma parcela da população que só está sendo vista pela reforma da previdência. Homens e mulheres com mais de 60 anos. São humanos como nós. Com desejos, sonhos, medos, traumas. 
Fomos educados a ver a velhice como algo decadente e problemático. Decadente porque vimos o velho como algo caquético e derrocado e problemático pois é um fardo para os "jovens" (eu que sou responsável por dois jovens idosos me identifiquei horrores com as filhas da personagem interpretada pela Diane Keaton). Vemos um velho e sentimos pena: - "olha como está acabado". 
Fomos treinados a ver seca e deserto  na velhice e, em realidade, há intensa produtividade e vida. Os velhos, ou maiores de 60 anos, tem consciência de que o fim está mais próximo, mas isto não quer dizer que desejem sentar e ver a morte chegar. Que ela chegue, porque vai chegar para todos nós, mas que nos arrebate dançando, viajando, transando, rindo, cozinhando, lendo, amando, vivendo plenamente. 
Meu pai fez 75 anos e é tão serelepe e cheio de energia que ás vezes me assusta. Uma vez, em que conversávamos sobre a questão da velhice, ele me disse:
- "Esse velho que vejo no espelho eu não o reconheço. Ele não sou eu. Eu tenho uma energia e uma vontade de viver a vida que esse corpo não traduz. Eu sou jovem."
Fiquei pensando o quanto de poda faço no meu pai e na minha tia e o quanto de preconceitos e pré-conceitos (como diria Caetano) sou atravessada. O quanto a lei do mercado busca nessa faixa da população um mercado consumidor também, afinal são pessoas que consomem e que, com uma vida mais estabilizada, podem gastar.
Fica a dica do filme, fica a dica do livro também. O filme é leve e reflexivo (ainda mais quando ele enfatiza de que nunca se é tarde para realizar sonhos) Já os livros de E. L. James estão longe de ser uma leitura de excelência, mas pode-se divertir muito lendo-o ou aplicando suas sugestões. 

terça-feira, 26 de junho de 2018

Maternidade

A pergunta que mais tenho respondido ultimamente dos meus alunos:
- Profe tu tens filhos?
- Não, não tenho.
E a segunda pergunta:
- Por quê?

Como explicar a essas crianças que foi ao mesmo tempo uma escolha e uma definição da vida?
Como dizer pra eles que a felicidade não se resume a ser casada e ter filhos? Que há outras formas de ser feliz, de estar bem com suas escolhas e com a sua vida!?
Como dizer as minhas alunas que elas podem tudo, inclusive não querer ser mãe?
Como explicar que  não desejar ser mãe não te faz uma pessoa abjeta, estranha e infeliz?
Que ser feliz é importante, sendo mãe ou não! Mas que deixar de ser feliz por imposição de ditames sociais nos faz doentes.
Que elas podem escolher ser mãe e ficar tudo bem e que podem também escolher não ser mãe e que isto não as fará menos mulher, menos amorosas, menos bonitas e menos felizes.  
Não sou uma pessoa desprovida de "maternidade". Gosto muito dos meus alunos, gosto muito de crianças de todas as idades, sou endoidecida pelos meus sobrinhos e pelos meus afilhados.
Adoro estar com eles, brincar e vivenciar as mais diversas experiências. 
Mas me acalma saber que minha responsabilidade com eles não é a da maternidade.
Posso um dia mudar de ideia? Tranquilamente!
O que desejo é que meus alunos saibam, principalmente as meninas, que elas têm escolha. Que o natural não é ser mãe, o natural é ser feliz!

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Tratado geral das grandezas do ínfimo



A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogio.

Manoel de Barros

sábado, 23 de junho de 2018

Doutoranda

Saiu o resultado. Pensei que era apenas em julho.
 Passei na seleção para o Doutorado na UFRGS.
A UFRGS foi eleita a melhor universidade do país. O Programa de Pós Graduação em Letras da UFRGS recebeu a nota 7, a nota máxima da CAPES. Meu orientador além de ser um cara super bacana, é um ser humano íntegro e um baita cabeção em  pós-colonialismo. Um cara competentíssimo.
Eu estou muito feliz! Feliz pra caramba! Feliz pra caralho!
Eu sou a filha de uma negra com um branco, sou neta de um sapateiro e de uma lavadeira que vieram de Pelotas fugindo da fome e da pobreza e em busca de novas oportunidades. Meus pais sempre estimularam em mim o gosto pelo estudo e pela leitura. O quintal da minha casa era uma biblioteca pública. Cresci ouvindo minha mãe dizer que quando eu lia o mundo parava (e o pior que parava mesmo!). Eu lembro que quando fiz vestibular a primeira vez, meio sem saber o que fazer, segui a orientação da minha mãe e fiz pra jornalismo. Depois fiz pra medicina (estudei muito, estudei pra caramba, mas não era o que eu queria, fiz para agradar meu pai). Comecei a trabalhar e minha mãe me intimou para fazer o vestibular novamente, e eu disse que não faria, afinal já estava trabalhando. Ela me perturbou pra fazer o vestibular. Usei várias desculpas e uma delas era a de que não tinha dinheiro pra pagar a inscrição. Minha mãe me disse: eu pago. Então repliquei que faria para o que eu realmente queria: Letras. Minha mãe daquele jeitão dela encerrou a conversa dizendo: "faça para o que tu quiser, mas vais entrar na universidade". Lembro que quando passei, em 1996, ela estava toda orgulhosa porque seríamos colegas na UFRGS. Minha mãe entrou na universidade em 1990, aos 44 anos. Eu entro no doutorado aos 42. Quem sabe meus sobrinhos tenham terminado o PhD antes dessa idade. Não que esse título seja o importante. O importante é rompermos com um discurso que mantém o pobre sempre pobre, que mantém nossas mentes e potenciais acorrentados ao não pode, ao não consegue, ao não merece ou ao pensamento de uvas verdes da raposa na fábula do Esopo: eu nem queria mesmo.  Romper com isto exige de mim um esforço constante de superação, de disciplina, de organização e de muito estudo. Precisamos agarrar nossos sonhos com garras afiadas e não largá-los.
Sempre soube que seria professora. Nunca houve em meu coração outro desejo que não fosse dar aulas. Sou oriunda da escola pública, fiz o magistério numa escola estadual. Entrei na universidade federal, e lá fiz minha graduação e meu mestrado. Faço a minha segunda graduação, em Filosofia, também na universidade pública. Sou funcionária pública. Embora nesse país há o pensamento tacanha e burro de que se é público é de péssima qualidade, procuro sempre me especializar, aprender, melhorar, para oferecer a população de Alvorada e de Porto Alegre um serviço de excelência. Tenho colegas maravilhosos que realizam um trabalho muito melhor que muita escola particular. Tenho colegas premiados nacional e internacionalmente. 
Eu queria poder apenas estudar mas, infelizmente, não posso. Preciso trabalhar pra pagar as contas ao final do mês. E que bom que posso trabalhar e estudar. Que bom que posso ainda em sala de aula estimular as minhas alunas e meus alunos a estudarem. Quando celebrei com eles minha conquista alguns nem sabiam do que eu falava. Outros vibravam como se fosse um gol da seleção e em duas meninas vi o olho brilhar, pois de alguma forma sabiam que eu cheguei onde gostaria de chegar, que conquistei o que eu havia desejado. Porque percebem que estudar para mim é libertador. A literatura pra mim é amor, é gozo, é vida.
É isto: me sinto viva, pulsante!
Estudar o que estou me propondo, Pós-colonialismo e Identidades, e estudar autoria feminina é uma forma de resistência e de militância. Resistência, porque produzimos conhecimento contestando epistemologias canônicas de que ex-colônias serão sempre colônias. Que a produtividade de ex-colônias nada mais são do que cópias grosseiras do que a Colônia produz. E militância porque há gerações que precisam aprender a olhar o outro, a desenvolver empatia pelo outro e por isso é necessário reconceituar categorias como raça, gênero, trabalho, produção artística, entre outras.
Meu projeto de estudo está baseado em duas obras: Hibisco Roxo da Chimamanda Adichie e em Infiel da Ayaan Hirsi Ali. Duas obras díspares, um romance e uma autobiografia, de dois países com trajetórias diferentes, Nigéria e Somália, abordando duas religiões em oposição, catolicismo e islamismo e, mesmo assim, tão semelhantes quando descrevem a mulher negra em uma realidade pós-colonial. Que sujeito é esse? que autoria é essa? Que voz é essa que lhes dá condição de existir?
Bora lá estudar, pra tentar responder essas perguntas e mais algumas!

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Seleção

Quando ouço e vejo pessoas tão desinteressadas pela Copa, e eu sou uma delas, alimento silenciosamente o desejo de que perguntas estejam sendo feitas, mesmo que não em voz alta:
Seleção de quê? Seleção pra quê? Essa é a nossa representação?
Não penso em desencantamento ou deixar de gostar de futebol (eu continuo gostando muito), mas alimento o desejo que cada vez mais o futebol deixe de ser algo paralisante da nossa forma de pensar, refletir e questionar o mundo. 


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Cooper de Cida

Agora que terminou a loucura da seleção pro Doutorado voltei a ler por fruição.  Em maio, no FestiPOAliterária, assisti a fala da Conceição Evaristo (escritora mineira, negra e de grande representatividade na literatura brasileira feminina contemporânea) e fiquei muito curiosa. Recentemente a autora se tornou oficialmente candidata a Academia Brasileira de Letras. E isto é de uma força política e social brutal. Tomara que seja eleita.
Achei a fala dela mansa e suave, mas de uma grandiosidade resplandecente. 
Como andava sem tempo pra ler na ocasião do FestiPOA optei comprar um livro de contos, curto e cujo nome, Olhos D'Água, nomeia também um documentário sobre a sua vida. 
Cada conto conta a história de uma indivíduo - a maioria mulheres - periférico, pobre, favelado e a maioria deles negros.
Ainda reverbera dentro de mim o conto o Cooper de Cida. Uma mulher que corre no calçadão de Copacabana, que corre da vida, até que se da conta que precisa desacelerar, desfrutar, ver o mar. Interessante o nome do conto, pois ao mesmo tempo que cida relembra a Nossa Senhora Aparecida, é um sufixo relacionado a morte: homicida, bactericida, etc. Morte e vida. E o conto fala sobre isto, morte em vida e a vida que surge após uma morte simbólica. Deixo abaixo uma parte do conto que é pura poesia. 

 "Aumentara vertiginosamente o hábito de correr. Todas as manhãs, os pés de Cida pisavam  rápido o calçadão da praia. Iam e vinham em toques rápidos e furtivos, como se estivessem envergonhados dos carinhos  que o solo pudesse lhes insinuar no decorrer da marcha. A moça imprimia mais e mais velocidade a sua louca e solitária maratona. Corria contra ela própria, não perdendo e não ganhando nunca. Mas, naquele dia, a semidesperta manhã inundava Cida de um sentimento pachorrento, de um desejo de querer parar, de não querer ir. Sem perceber, permitiu uma lentidão aos seus passos, e pela primeira vez viu o mar. A princípio, experimentou uma profunda monotonia observando os movimentos repetidos e maníacos das ondas. Como a natureza repetia séculos e séculos, por todo o sempre, os mesmos atos? O dia raiar, a noite cair, o sol, a lua... O mar magnânimo lavando repetidamente, a curtos intervalos, a areia circundante. Tudo monótono, certo e previsível. Tão previsível como os principais atos dela: levantar, correr, sair, voltar.  Contemplou os rostos que passavam, conhecia todos de relance. Todas as manhãs topava com aquelas faces suadas diante de si. Assustou-se. Percebeu que não estava correndo. Estava andando em câmera lenta, quase. Sentiu a planta dos pés, mesmo guardada nos tênis, tocando o solo. Estava andando, parando, andando, parando, parando. Todos os seus membros  estavam lassos, só o coração batia estonteado. Cida levou a mão ao peito. Sentiu o coração e os seios. Lembrou-se de que era uma mulher e não uma máquina desenfreada, louca, programada pra correr. Envergonhou-se dos orgasmos premeditados, cronometrados que vinha cultivando até ali. Ela não se entregava nunca e repudiava qualquer gesto de abandono que alguém pudesse ter diante dela. A corda bamba do tempo, varal no qual estava estendida a vida, era frágil, podendo se romper a qualquer hora. Era preciso, pois, um constante estado de alerta. O mar movimentou-se, novamente num gesto aliciante e convidativo. Cida abandonou o calçadão e encaminhou-se para a areia. Sentiu necessidade de arrancar os tênis que lhe pendiam os pés e deixou aquelas correntes abandonadas ali mesmo. Afundou os pés na areia e contemplou mais uma vez o mar. "

 A imagem da mulher que simplesmente para de correr e disfruta do mar me arrepia. 
E esta frase: "A corda bamba do tempo, varal no qual estava estendida a vida, era frágil, podendo se romper a qualquer hora." é  pura poesia!

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Contranarciso

Contranarciso

Paulo Leminski

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós


terça-feira, 19 de junho de 2018

Mulheres

Assombro!
Hoje é 19 de junho de 2018! Estamos no século 21 e a humanidade ainda pratica atos inomináveis com as mulheres.
Viralizou um vídeo em que homens brasileiros, jovens, bem sucedidos, políticos, policiais, advogados em atitudes misóginas e desrespeitosas com uma jovem russa na Copa do Mundo.
Eu, como mulher e como brasileira me senti desrespeitada, violentada com aquela atitude machista e degradante  da nossa condição humana.
Observei em seus sorrisos que aqueles rapazes possuem a convicção de que a justiça é tendenciosa, invigilante e a impunidade é certa.  O peso que temos em nossas  costas com as atrocidades cometidas com mulheres ao longo da história da humanidade é incalculável. E, ainda hoje, elas seguem sendo praticadas em todos os cantos do mundo. Não importa o nível de desenvolvimento econômico, o IDH ou a quantidade de museus em suas cidades.
Por exemplo: a condição da mulher negra no Estados Unidos. O recém lançado clip da Beyoncé, Apeshit,  é uma crítica pungente a cultura branca em detrimento a representação da cultura negra. No início do ano a Beyoncé perdeu o Grammy de melhor álbum para Adele.  E não foi não por sua capacidade musical, que é indiscutível mas, única e exclusivamente pela  cor de sua pele.  Quanto mais desenvolvida é a cultura, mais perversa é a sua capacidade de mascarar a misoginia.
Outra situação: Na Espanha a justiça, em uma sentença completamente discutível, condenou os estupradores "La Manada" por abuso sexual e não por violência sexual, possibilitando aos condenados uma pena mais branda. E assim mantendo o status quo de uma sociedade patriarcal.
 Outro exemplo para ilustrar: Embora seja proibido e condenado pela ONU, a circuncisão feminina é prática comum em alguns países africanos e asiáticos. Principalmente em países onde a religião muçulmana impera. Hoje mais de 80% de meninas com até 15 anos  sofreram a ablação genital parcial ou total. Em alguns países esse índice chega a quase sua totalidade.
Mais um exemplo: O Brasil é o 7º país no mundo mais violento para mulheres. No Brasil há cada 2h morre uma mulher vítima de Feminicídio.
Aqueles jovens brasileiros talvez sejam eleitos em outubro, talvez passem em concursos pra juiz e assim contribuirão para perpetuar um patriarcado opressor e violento.  Pra agravar a situação, esses jovens são do norte e do nordeste do país onde a desigualdade social é imensa e meninas são vendidas para abrandar a fome de seus familiares. Recentemente um policial do norte do país foi preso por pedofilia com uma menina de 11 anos. 11 anos. Mas o mais aterrador da situação são o comentário de mulheres criticando a menina de 11 anos (repito: 11 anos) por ter dado mole para o policial. Os comentários dessas mulheres são ignóbeis. 
Eu passo minhas tarde de trabalho com meninas de 11 anos. Elas são lindas, espertas, inteligentes, alegres, curiosas. São valentes. Elas não estão interessadas em policiais de mais de 30 anos. Mas a educação que recebemos é tão mutiladora que mulheres acreditam que meninas de 11 anos se oferecem aos homens.Oi?
As mulheres são tão oprimidas que se julgam culpadas pelo desejo que um homem pode sentir por elas. Aquilo que ele sente é responsabilidade dele, assim como suas ações. 
Em 2014, também na Copa do Mundo, homens como aqueles jovens, puxaram um coro tão hediondo quanto o vídeo com a moça russa. Eles mandaram a sua presidente tomar no cu. 
Mesmo que esse cenário local e global me entristeça, ao lembrar de minhas alunas de 11 anos tão cheias de vida, ao olhar para minha sobrinha e minhas afilhadas eu tenho uma raiva tão grande que não vejo outro caminho que não seja tentar construir um futuro diferente. E torno essa raiva em energia, uso ela como combustível para promover fissuras nesses discursos misóginos, para produzir outros discursos, na perspectiva foucaultiana, pra produzir novas relações de poder, onde  a sororidade seja substantivo simples e comum de tão corriqueiro que será e o feminismo  substantivo derivado de ações justas, igualitárias e que nos tornem mais humanos.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Mar Cidreirense

As redes sociais estão cheias divulgando um filme francês intitulado Os 50 são os novos 30. Aí lembrei de um texto que fiz quando estava perto de fazer 40 anos. 
Estava preocupada com os 40 anos, enchei a boca e alma esse número: 40!  Quando falei pra minha terapeuta* a minha preocupação ela me disse: Nem te preocupa, os 40 são os novos 20!
Segue, outro tema!
Na hora, eu fiquei meio revoltada com ela, porque não estava dando atenção a minha crise! Hoje dou risada, e ela tinha toda a razão. Há coisas mais profundas pra gerar crise que celebrar 40 anos. 
Mas o texto que escrevi se chamava Mar Cidreirense. Cidreira é uma praia do litoral norte do RS. Sem atrativos, com um mar chocolate e gelado. Porém, domina meu coração com uma força absurda. Cidreira me traz boas e doces memórias. Passei os verões em Cidreira. Meus aniversários, os carnavais, meu primeiro porre, minha primeira transa. Um carnaval surreal e guardado como relíquia...

Segue o texto:

Minhas reflexões sobre eu mesma enquanto retorno pra casa: Eu sempre quis ser  mar caribenho, por sua transparência, beleza e calmaria. Mas a verdade é que sou autêntico mar cidreirense. Por ser revolto, escuro e local. Mar caribenho é transparente por causa de suas algas, mas que são efêmeras e frágeis. Cheio de recortes suas águas dão aparência de calma, mas de se seu solo origina inúmeros abalos sísmicos de imenso poder destrutivo. Prefiro ser mar cidreirense: inquieto, ativo, escuro devido a alta produtividade de suas algas. Local, porque é onde minha família e meus amigos encontram paz. Prefiro ser mar cidreirense, porque é mar aberto, extenso, profundo. Porque na verdade é oceano, não mar.

E os 40? estão realmente sendo os novos 20!

* (Fiz terapia por um tempo, após sofrer novamente um assalto que me imobilizava sair e chegar em casa e me impedia de dirigir a noite, mas isto é tema para um post futuro).

domingo, 17 de junho de 2018

Eu não sei paquerar

Dura realidade, mas eu não sei mesmo!
Não que esse seja um conhecimento que me faça falta.
Uma amiga me disse recentemente: "Tu fica super bem sozinha, eu te admiro por isso. Tu és feliz sem alguém".  Alguns anos atrás ouvi algo semelhante de uma outra amiga, mas em forma de pergunta.
Não organizei a minha vida porque queria estar sozinha. Isso se a gente consegue planejar a vida, eu tenho lá minhas dúvidas... Acho que planejamos algumas coisas, a maioria dos eventos da nossa vida não! A gente a vive simplesmente.
Tive alguns namoros, me apaixonei algumas vezes. Infelizmente não deu o certo para sempre. Deram certo por algum tempo. 
Contudo, nunca foi empecilho fazer o que gostaria de fazer por estar ou não com alguém. Eu saio sozinha, eu vou ao cinema sozinha, eu gosto de viajar sozinha, eu vou ao estádio sozinha, eu vou a shows sozinha. Como também gosto de fazer tudo isto acompanhada. 
Por que falo sobre isto? Porque algo inusitado me ocorreu essa semana. 
Prometi no início do ano presentear um colega da faculdade com um livro que tenho duplicado. A gente sempre trocou algumas mensagens via wsp mas, para mim, na camaradagem. Nunca interpretei isto como paquera (continuo não interpretando!). Aquela comunidade do tempo do Orkut: ¨eu sou legal, não estou te dando mole". O orkut tinha uma outra que eu adorava, "eu sinto vergonha pelos outros", tão atual e tão necessária. 
Nesta semana o colega me enviou algumas mensagens, pedindo para analisar a proposta de alguns cursos que estava a fim de fazer e tal. E eu dei minha opinião. Conversamos sobre alguns autores e filósofos. Ele me lembrou de levar o livro prometido na aula. 
Na sexta-feira nos encontramos, entreguei o livro. Tínhamos apresentação de seminários. Assim que finalizamos a apresentação ele me convidou pra sair da sala, pra conversarmos. Eu, como não entendi o motivo, não saí da aula. Assim que a aula terminou ele me cobrou o porque não havia saído. Para mim era óbvio, eu estava assistindo a aula. 
Quando a aula terminou, estávamos cotizando caronas e esse colega se ofereceu pra me dar uma carona. Eu já tinha conseguido uma carona com outro colega. Aí esse outro colega perguntou a ele: Tu moras onde (com o intuito - acho eu -  de dividir caronas)? E ele respondeu: "aqui mesmo, mas vou levá-la".  Aí esse  outro colega diz ironicamente: Ah tá bom, a gasolina tá super barata, não tá frio, não tá tarde pra tu ficar dando carona e além disso indo até Porto Alegre! 
Silêncio! Só quando a situação foi explicitada pelo meu outro colega que a grande ficha caiu!
Eu agradeci e aleguei que tinha um outro compromisso (o que era verdade!).
Eu sei que sou uma pessoa tri legal e tri bacana, mas acho que só meus irmãos seriam capazes de 22h da noite de uma sexta-feira fria pra caramba sair de uma cidade a outra apenas pra me dar uma carona exclusiva? 
Outra situação:
Alguns meses atrás reencontrei um ex-namorado no Shopping. Tinha ido ao super e estava saindo de lá, já até havia chamado o Uber. Ele passou por mim, parou e ficou sorrindo. Eu,  como TDAH por excelência - desligada e desfocada - olhei e fiquei pensando: eu conheço? da onde? Aqueles 15 segundos de pânico, quando a pessoa te cumprimenta e tu não lembra. Aí me dei conta quem era, cumprimentei, abracei, perguntei sobre a família e tal. Fui educada e sociável, genuinamente, é uma pessoa que quero bem. Mas sabe quando teu passado se apresenta na tua frente e parece que não é teu. Ficou acariciando meu braço, segurando a minha mão, querendo saber de mim, da minha família e tal e perguntando se eu estava com pressa. Sim eu estava com pressa. Não percebi que queria continuar a conversa, só me dei conta disto quando contei pra minha terapeuta. Eu estava mais impactada por não o ter reconhecido que nem percebi o interesse que ele explicitou. 
Outro caso:
Eu tinha sei lá... uns 12, 13 anos e tínhamos uma turma de amigos, todos da vizinhança. Eu ainda os tenho. Eu, muito moleca, vivia no meio dos guris. Eu sempre gostei de futebol, e a paixão pelo Inter me unia aos meninos. Certo dia, uma vizinha mais velha que eu uns 7 anos, observando a gente brincando na frente de casa, me disse: "o fulano tá a fim de ti". Eu achei a coisa mais absurda do mundo. Bem capaz, o fulano é meu amigo. Alguns dias depois o fulano se declarou pra mim e pediu pra me namorar. E pra mim aquilo foi muito fora de propósito, éramos amigos, gostávamos de futebol, do Inter. Eu não queria namorar ninguém. E hoje adulta ao relembrar isto, ainda me pergunto como ela identificou. Porque eu nunca percebi nada. Eu só sei que houve um interesse porque ele me disse, porque eu nunca percebi. 

Então, essa é a verdade, sou incompetente em paquera. Não vejo/escuto/percebo os sinais. Só quando são explícitos! 
A tirinha do argentino Liniers expressa um pouco a minha situação! 

sábado, 16 de junho de 2018

Cosmopolita

 Hoje me senti cosmopolita!
Fui convidada por uma professora da universidade a participar de um grupo de leitura de Literatura Feminina Africana!
Como as autoras que pretendo trabalhar no doutorado são mulheres e africanas, a professora que me entrevistou indicou esse grupo. Troquei alguns emails com a moça que coordena o grupo e fui. 
Quando fui a Nova York uma das coisas que mais me chamou a atenção era o quanto a cidade era diversa. E me impressionou que havia restaurante de comida etíope. Comumente dizemos, quero comer comida árabe, chinesa, japonesa. Recentemente em Porto Alegre, descobri que podemos comer comida Coreana. Em Nova York você pode escolher comer comida Etíope! É muito cosmopolita!
Algo do específico do específico. Pois hoje comecei a frequentar um grupo que estuda literatura feminina africana EM PORTO ALEGRE. Shakespeare? Saramago? Cervantes? Não! Literatura Feminina africana (uma delícia falar isto vagarosamente, com as vogais e consoantes rolando pela língua). Clima cordial, discussão de peso, café saboroso e lugar aconchegante. Discussão desse mês: Futhi Ntshingila autora do livro Sem Gentileza. 
Se tiver um grupo que discuta Haruki Murakami, estarei perto do céu!

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Volver...

Desde o início do ano e também com as diretrizes que esse governo golpista e usurpador tem tomado para a nação brasileira, resolvi antecipar o plano de fazer doutorado. E resolvi voltar à universidade.
O doutorado era um projeto de aposentadoria, algo para fazer com tempo e dedicação. Algo para desfrutar. Imaginava participando de congressos na Colômbia, no México, em Cuba. Queria fazer turismo e estudar literatura. Imagina? A vida seria perfeita!
Mas, como disse Caetano, "a vida é real e de viés" eu acabei antecipando em 8 anos esse projeto.
No início do ano contatei um professor da universidade, explicitei o meu desejo e ele me acolheu, me chamou pra fazer uma disciplina como aluna especial. Acabei por me inscrever no processo de seleção.
Aí bateu pânico, aí bateu medo... Estou afastada há quase 10 anos da Academia, 10 anos sem rotina de pesquisa cientifica, sem participar de núcleos de pesquisa.  Estou há 10 anos vivendo a margem da universidade. Verdadeiramente pensei: " quem sabe nasci só pra ser professora mesmo".
Aí, enquanto dirigia e conversava com uma amiga a quem dava uma carona, começou a tocar a música SEA do Drexler. Poutz! Caraca! Drexler é para mim tão importante, que parece da família. A sua poesia vibra no mais profundo da minha alma. Drexler é como medicina, remédio, terapia, Analista de Bagé. E aí meio doida, completamente insana ouvi os primeiros versos dessa música que me dizia: Foda-se! Os dados já estão lançados, minha moeda já gira no ar, agora não há retroceder. E o que tiver que ser, será!
Eu, que nunca fui de fugir de peleia alguma, estava num processo de autopiedismo, de medinho, de baixa auto-estima. Drexler foi lá, meteu o pé na porta e me devolveu o prumo.
Hoje fiz a entrevista. Hoje defendi o meu projeto de tese.
Fui lá e fiz, movi as rodas do destino. Busquei meu sonho (talvez sem congresso na Colômbia, no México e em Cuba). E o que tiver que ser, será!
Em julho sai o resultado!

Cotidiano

São 17h22min. Tomo o ônibus para o 3º turno de trabalho. Um dia normal como qualquer outro. 

Leio isto no vidro do ônibus:


 "Quando te ausentares, amor, deixa um bilhete.
Simples, singelo, resumido.
Todo teu universo nesse singelo lembrete.
Tuas mãos sobre o papel que eu imagine.
Tua boca, cada palavra silenciosamente recite.
Nada de título ou parágrafo.
Muito de ti, tua essência.
Neste pequeno espaço."

Caio Schroer

Me pergunto o quanto de nossa essência compartilhamos? O quanto de nossa genuína essência deixamos impregnar no outro? E o quanto a aprisionamos?


quarta-feira, 13 de junho de 2018

6 meses

Em 1º de setembro de 2017 faleceu a minha última tia viva. Irmã de minha mãe. Tia Edilza faleceu com 69 anos de infarto agudo do miocárdio. Isto aconteceu com minha mãe em 1998, aos 52 anos. Com minha vó em 2001, com minha outra tia no Natal de 2014. A morte da minha tia, além de trazer uma imensa tristeza e saudade na família, pois era uma mulher iluminada e bondosa, fez um hecatombe em mim. Minha tia era daquelas pessoas que tinha a casa sempre cheia de amigos, que conhecia muita gente, que sempre estava disposta pra conversar, rir, dançar e brincar. Sua partida é sentida por todos.
A partida da minha tia me elevou ao cargo de mulher mais velha da família, geneticamente falando.  Eu sou a primeira neta. Depois da geração das minha mãe e das minhas tias, eu sou a primeira mulher da geração seguinte. Estava com 41 anos, num ano difícil profissional e emocionalmente.
Fiquei aquele setembro pensando no quanto tempo de vida teria se seguisse o rumo que minha saúde estava tomando. Estava gorda e insatisfeita com os rumos profissionais que se desenhavam no horizonte. Não tinha desafios. Só muito trabalho. Comecei a pensar com maior seriedade na gastroplastia, na cirurgia de redução de estômago.
E sempre foi muito dificultoso trabalhar com essa possibilidade, afinal sempre fui ativa, corria, nadava, envolvida em muitas coisas, viajando. Por um tempo coloquei a culpa nas chegada dos 40. Mas a grande verdade era que eu estava muito mais gorda que já estive uma vez na vida, sentia muitas dores no corpo e as pessoas quando me perguntavam como eu estava, eu respondia: "Cansada!" Logo eu!!!
Comecei então anonimamente a buscar médicos, procurar sites, ler depoimentos a estudar sobre o assunto. Agendei consultas. Do nada minha irmã caçula me enviou uma mensagem via WhatsApp perguntando pq não fazia a redução. Então contei a ela que estava procurando saber mais. Não falei e não comentei com as pessoas porque não queria a cobrança de que deveria, ao final do processo, fazer a cirurgia. E eu não sabia ainda se era o que eu queria. Eu estava buscando alternativas para o meu problema com o peso, pois dieta e atividades físicas não estavam adiantando. Visitei ao todo 7 grupos médicos. Achei quase todos uma máfia. Uma forma de ganhar dinheiro com os obesos. Capitalismo é foda. Não importa nada a não ser o lucro. No penúltimo grupo que visitei, a conversa com o médico foi muito maravilhosa. Cheguei do meu jeito todo aquariano de ser: na voadeira. Disse que achava uma máfia: que faziam terrorismo com os pacientes, que era muito caro, que não entendia o pagar particular, se meu plano de saúde cobria tudo. Disse para o médico que minha preocupação em fazer a cirurgia não era estético ou problema com a minha estima. Eu sempre me achei bonita, legal, aceita, etc. Mas que não queria ter o fim que minha mãe teve. Eu queria viver mais do que os 10 anos que ela viveu. Essa era a diferença de idade em que estava e a idade que ela faleceu. Fiquei quase 2 horas no consultório e o médico de uma atitude de excelência. Saí de lá convencida a fazer a cirurgia. Embora a máfia continue existindo.
Tinha uma consulta com o Dr. Igor Wolwack Jr, no dia 07 de novembro. já estava decidida a fazer a cirurgia com o médico da última consulta.  Mas o Dr. Igor foi de uma doçura e de uma simplicidade emocionante.  E me apresentou as mesmas coisas que o doutor anterior apresentara, sem a máfia. Ou melhor, com a máfia absorvida no meu plano de saúde. Poderia realizar todo o tratamento por meio do plano e não apenas particular.
No dia 11 de dezembro de 2017 realizei a cirurgia no Hospital da Brigada Militar. Transcorreu tudo tranquilamente, como tem transcorrido neste últimos 6 meses.
Hoje estive em consulta médica com a geriatra da equipe do Dr. Igor. Eliminei 32 kg, Meus exames estão excelentes, sem qualquer perda vitamínica e com raríssimas alterações alimentares (tenho dificuldade de comer peito de frango, é muito seco pra comer, então prefiro comer a sobrecoxa).
Como o doutor havia me dito naquela consulta epifânica, ele não poderia me garantir mais 10 anos de vida, ou 20 ou 30 ou 50 anos. Mas ele me garantiu que viveria com qualidade.
E vivo. Sinto muito mais disposta, sem dores, dormindo melhor, me sentindo melhor, podendo realizar com prazer as coisas que gosto e colocando desafios na minha vida. E essa semana, em vias de realizar a entrevista para o doutorado. Estou ativa, alerta, feliz com a possibilidade de voltar a universidade e de seguir estudando. Com novas rotas de viagens. Com novos planos de vida. Continuo feliz e muito mais bonita! E esse planeta tá ficando pequeno!
É isso 6 meses! Até na morte minha tia foi generosa comigo.

domingo, 10 de junho de 2018

Noite de Meninas de Família

Marjane Satrapi escreveu um livro bárbaro, em forma de  HQ, chamado Persépolis. Ele é sua autobiografia. A forma como ela descreve a vida da mulher iraniana dentro do regime Xiita é assustador para nós mulheres em pleno século XXI. Estamos falando de 30, 40 anos atrás. Isto em um tempo histórico é nada, é horas atrás. Outro livro dela também de cunho autobiográfico é Bordados. Bordados é um livro que fala especificamente sobre as mulheres da família Satrapi. Em momentos de conversa, fortalecimento e compartilhamento. Embora a palavra não seja usada na obra, sororidade é algo que circunda aquelas mulheres reunidas tomando samovar. Marjane Satrapi era uma menina de 10 anos, responsável pro produzir o chá que seria tomado, enquanto os homens faziam a sesta. Participar desses momentos dão a autora uma memória afetiva e simbólica potente, capaz de romper com a cultura machista iraniana.
Meio que inconsciente propus as mulheres da minha família que pudéssemos nos encontrar, de foma mensal ou um pouco mais, um jantar em que pudéssemos conversar sobre nós, sobre o feminino, sobre nossos únicos e exclusivos assuntos e que com tudo isso pudéssemos nos fortalecer e divertir. Eu já faço isto com um grupo de amigas, professoras, que formamos por um trabalho que fizemos em conjunto. Religiosamente, há 3 anos, nos encontramos mensalmente. 
Surgiu então, há mais de um ano, a Noite de Meninas de Família. E, é muito importante que minha sobrinha, hoje com 6 anos, participe desses momentos. Que ela possa se fortalecer com o exemplo de mulheres tão da porra como as de sua família.  
Não há nada de mais nesses encontros: nos arrumamos, preparamos comidinhas, bebemos espumantes, conversamos, rimos, cantamos e dançamos. Tornamos a alma mais leve, a vida mais suave, porque não estamos sozinhas, temos parceria e irmandade para compartilhar a estrada. 
Ontem foi mais um desses encontros. Não há palavras pra descrever o quanto esses momentos são reenergizantes, fortalecedores e humanizadores. A gente leva a vida tão na velocidade, tão na rapidez que esses momentos de parar e desfrutar a companhia umas das outras são essenciais.
Esse encontro não se restringe apenas a um laço sanguíneo como o das minhas irmãs e minha sobrinha, ou de casamento como o das minhas cunhadas, mas ao laço amoroso da amizade e da nossa condição de mulher e, por isso, participam amigas, sogras, concunhadas, vizinhas. Sempre são convidadas!

Ontem o encontro foi aqui em casa e, embora eu ainda esteja limitada com a bebida alcoólica, tomar suco de uva em taça tem ajudado a enganar o cérebro. Continuo adorando uma taça de vinho carménère ou tempranillo ou um espumantezinho... beber com amigas é saudável e salutar...
Quero que o nosso exemplo também fortaleça os homens da minha família, que eles busquem mais apoio e parceria um com o outro. Que possam se reunir não só pra um churrasco ou um campeonato de vídeo game, ou assistir um jogo em conjunto. Mas que possam também se reunir, sei lá pra fazer um som! Pra sorrir e estarem juntos! A gente tem tão pouco tempo pra estar com quem se ama... essa questão do tempo é algo que tem me mobilizado também... tenho pensado muito nisto...

Desafio


Quero ver você ler até o final e não cantarolar! 

Evidências
Chitãozinho & Xororó
  

Quando eu digo que deixei de te amar
É porque eu te amo
Quando eu digo que não quero mais você
É porque eu te quero
Eu tenho medo de te dar meu coração
E confessar que eu estou em tuas mãos
Mas não posso imaginar
O que vai ser de mim
Se eu te perder um dia

Eu me afasto e me defendo de você
Mas depois me entrego
Faço tipo, falo coisas que eu não sou
Mas depois eu nego
Mas a verdade
É que eu sou louco por você
E tenho medo de pensar em te perder
Eu preciso aceitar que não dá mais
Pra separar as nossas vidas

E nessa loucura de dizer que não te quero
Vou negando as aparências
Disfarçando as evidências
Mas pra que viver fingindo
Se eu não posso enganar meu coração?
Eu sei que te amo!

Chega de mentiras
De negar o meu desejo
Eu te quero mais que tudo
Eu preciso do seu beijo
Eu entrego a minha vida
Pra você fazer o que quiser de mim
Só quero ouvir você dizer que sim!

Diz que é verdade, que tem saudade
Que ainda você pensa muito em mim
Diz que é verdade, que tem saudade
Que ainda você quer viver pra mim


A gente não consegue, eu sei!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Lógica

É necessário registrar que Lógica não é lógica!
Esse semestre, na Filosofia, estou cursando essa disciplina e as primeiras aulas que se baseavam em Aristóteles e silogismo estava tri de boa, só interessava sujeito e predicado. Agora que começou a Lógica Clássica, com Cálculo de Predicado, Cálculo Proposicional Clássico, Fórmulas Bem Formadas, fico me questionando se isto é algo de Deus? Lógico que não!
Quase 3 horas fazendo a prova!
Revivi aquele semestre em que fiz aquela cadeira de sintaxe gerativa na faculdade de Letras e que passávamos a manhã fazendo árvores gerativas para descobrir o Sintagma Nominal e aí descobrir se o termo era um adjunto adnominal  ou um complemento nominal. Até hoje não sei, naquela época havia decidido que ser feliz era mais importante do que saber isto. Então fiz o suficiente para passar. Vou me manter neste propósito: ser feliz. Quero que a Lógica se exploda. Farei o suficiente para passar. E eu lá quero saber de lógica, eu quero o insano, o insensato, o sem razão, o sentimento.

P.s: espero que a disciplina melhore ao longo do semestre... ou que eu melhore! Para que ela seja uma sentença bem formada! 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Desamparo

"A culpa tem fama de nos atrapalhar a vida, imobilizando-nos como uma camisa-de-forças, mas serve-nos também de tônico de resistência. O sentimento de culpa conduz-nos a uma maior tolerância para com as falhas alheias; todos claudicamos, num momento ou outro, e a certeza quanto à vocação ecumênica da imperfeição torna-nos mais leves e mais dotados para enfrentar a beleza e o horror. Tudo é transitório; a culpa morrerá connosco; quanto mais nos custar a arcar com o seu peso, tanto mais fácil se nos tornará o desapego, e menos assustadora se nos revelará a face da morte. "

Desamparo, cap 11, Ines Pedrosa

domingo, 3 de junho de 2018

O feriado mais longo que já vivi!

Quarta-feira a noite: Ballet Bolshoi no Teatro do Bourbon Country com melhor amiga. Ah! Dom Quixote!
Quinta-feira: Inglês, super, abastecer o carro, estudar Filosofia, estudar Filosofia, estudar Filosofia. Arrumar o quarto. Centro espírita. Estudar Filosofia.
Sexta-feira: Inglês, centro da cidade, almoço com um amigo, caça ao livro República de Platão, Olhar a cidade em ângulos diferentes, buscar ingressos no Teatro São Pedro, organizar seminários da faculdade, comprar material de informática para facilitar a vida (pen drive, micro sd, mouse, cabos, mp3), passagem no Mercado Público e comprar especiarias que só encontramos lá, manicure, estudar Filosofia. Show do mano: Daniel Drexler. Ao me direcionar so show sofro um  acidente de trânsito de uber. Apesar do susto, só perdas materiais. Show excelente.  Van Gohg com amiga (o orelha tem uma das melhores canjas da cidade). Filosofar a vida madrugada a dentro.
Sábado: podólogo, centro da cidade, comprar presente pra tia, volta ao Mercado Público, prestigiar o The Butcher na Brasa, café com amigas em dois cafés diferentes, bloguear, abacatear. Estudar Filosofia, ler Inês Pedrosa.
Domingo: exames de sangue, super, ler Edward Said, preparar casa para almoço em família, curtir muito a sobrinhada, celebrar aniver da Tia em família, ler Edward Said, preparar a semana, evangelho no lar. Postar. Dormir.

sábado, 2 de junho de 2018

La Mujer Habitada

Gioconda Belli é uma nicaraguense fodástica. A mulher foi guerrilheira em Manágua, opondo-se a ditadura de Somoza. Pegou em armas, subiu as montanhas, fez a revolução com a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN). Foi ministra da Cultura no governo revolucionário, escreveu poemas e o melhor romance da minha vidinha: La Mujer Habitada. Depois desse livro, um suco de laranja pra mim sempre foi fonte de energia vital aos meus sonhos mais utópicos.
Lembro que o li lá pelos anos 2000, porque a professora de Literatura Hispano-americana indicou. Consegui o livro num final de semana que fui com amigos para a praia. Pensei em lê-lo em momentos mais tranquilos. E a verdade é que me deitei e o peguei para ler, eu virei a noite lendo-o. Eu passei a manhã deitada lendo, meus amigos e minhas manas iam ao quarto ver se eu estava bem. O mundo, o tempo, o espaço ficaram estacionados enquanto eu era tragada por Belli.
Quando terminei de lê-lo o sol saiu. Quando terminei de lê-lo eu era outra Patrícia. Era Patrícia Lavínia Belli.
Essa coisa de amalgamar em nosso espírito as leituras que a gente faz é de um poder prodigioso.
Por que falo disto?
Desde que me lembre a literatura esteve na minha vida, tive pais muito leitores, tive uma biblioteca pública como quintal de casa. Tinha uma estante na sala de casa com muitos livros. Eu me alimentava de livros. Eu me alimento de literatura até hoje. Eu me refugio, eu me fortaleço, eu me reinvento na literatura.
Recentemente fiz uma postagem no Insta sobre livros que deixei a leitura inconclusa. Justo eu que nunca começo um livro sem terminar o que o antecede, comecei 6 esse ano e ainda não os terminei. Vou terminá-los. Só passar essa quinzena de junho.
Mas o que mais me impressionou foi que desses 6 livros, 3 são de autoria feminina. De mulheres fodásticas. De mulheres da porra! Belli, Chimamanda, e Conceição Evaristo. Dos outros 3 livros, um é sobre Sônia Gandhi e o do Borges tem um capítulo sobre Sherazade.  E aí me fiquei sisi... tô escolhendo bem o que ler! Só falta concluí-los!

Interstellar e as suas reverberações

Muito embora os livros exerçam verdadeira atração no meu mundo, tenho estado mais voltada à 7ª arte: cinema. No início do ano me propus a vivenciar o dialogismo entre a literatura e o cinema. Não vou conseguir fazer isto de forma tão contundente quanto gostaria. 
Há dois anos atrás me propus ler 50 livros em 1 ano. Consegui! 
Não tenho tido o volume de leitura que tive naquele ano, mas sigo minhas leituras. Ler pra mim é tão essencial quanto respirar, quanto estar com minha família.
Um dos filmes que vi a pouco tempo é Interstellar, de Christopher Nolan.  Há muito tempo queria ver, pois meu afilhado havia comentado que tinha visto no cinema e que era um filme surpreendente.
O filme realmente é surpreendente! Ele aborda questões interessantes sobre Física,  cujas quais sou leiga, ou melhor, analfabeta total. Fala sobre gravidade, buracos de minhocas, viagens intergaláticas, gargântuas, buracos negros, dilatação gravitacional temporal.  Mas ele deixa a certeza de que TODO MUNDO deveria vê-lo. Repito: TODO MUNDO.
O filme desconstrói nosso conhecimento linear de tempo e de espaço. Não há início, meio e fim. São paralelos, se entrecruzam, se permeiam, se misturam. E isto é muito pra nossa realidade. Não existe, passado, presente, futuro. Há o tempo. Pronto. 
Contudo, há nessa narrativa um outro ponto que me assombra: eles, os extraterrestres. E aí esse filme me toca de forma singular. O eles somos nós. Nós somos o outro diferente. E isto é avassalador. Pois o outro é nosso semelhante. Pois o outro é alguém idêntico a nós. Com medos, êxitos, fobias, potencialidades, limitações, traumas, sonhos, desejos, energia. Um eu idêntico a mim, só que atemporal. 
Ter capacidade de ver o outro como o outro eu (não duplo), eu ocupando um outro tempo, um outro espaço. Eu coabitando junto com o outro eu, nos torna melhores, empáticos, solidários, solícitos, nos torna humanidade. Vale a pena! 

P.s: Já tinha esse texto escrito faz um tempo. Não sei porque não havia postado!