Sei lá por onde começar este post. Sei lá mesmo. Tô um misto de saco cheio com esperança.
Um misto de ferocidade com risada, sem cair no desespero.
A frase célebre da Simone de Beauvoir, de que ninguém nasce mulher, torna-se mulher tem me feito pensar muito, e me deixado com raiva e me deixado com esperança.
A compreensão de que ser mulher é uma construção social, atravessada por relações de poder tem se agigantado dentro de mim. E eu bem tolinha, 10 anos atrás, achando romântica a frase da Beaver. Beaver era como Simone era "carinhosamente" chamada pro Sartre. E, puta que pariu, que merda ser mulher do Sartre. Ela não pode ser apenas a mulher, ela precisa se tornar A mulher, para ser a companheira do filósofo existencialista. E porque a recíproca não poderia também ser verdadeira?
Todos os dias somos atravessadas por uma série de necessidades para que nos tornemos mulher e que enche o saco: use saia, passe batom, não sente dessa forma, tenha filhos, limpe a casa, seja reservada, fale baixo, se respeite! Socorro!!!
A própria Simone sofreu na pele a forma de ser relegada a um segundo plano, por exemplo, quando ela e Sartre concorreram a uma vaga no mestrado e ele ficou com o primeiro lugar. Não venha me dizer que foi apenas uma questão intelectual e não de atravessamento do gênero. E isto me emputece, me enfurece!
Na minha turma da Filosofia, 62% dos que desistiram do curso são mulheres. Se você concordar que é pela capacidade intelectual, perdeste a amiga!
Porque as mulheres abandonam mais? Certamente é porque precisam conciliar família, maternidade, trabalhos domésticos, carreira, estudo. Não conseguem. Não somos as mulheres maravilhas que querem que sejamos. Não estamos com o cabelo impecável, a maquiagem perfeita, a unha pintada, a perna depilada, o conhecimento perfeitamente construído e sempre pronta para atender com rapidez, atenção, educação, prestatividade aos homens. E aí tem o discursinho irritante de homens brancos, heterossexuais e cristãos que dizem "não haver" distinção de gênero! PHOOOHHAAA!
Uma colega de escola relatou uma conversa com alunas, contando que, se o traficante da comunidade pedir pra "ficar" contigo, não podes negar. Oiiiii???? Mais uma vez a mulher é submetida, tolida, cerceada pelo desejo do homem. A colega relatou que meninas evitam sair de casa para não serem desejadas...
E liberdade, substantivo tão caro para humanidade, só sofre flexão no masculino.
Na apresentação de seminário na faculdade (Filosofia), uma colega citou algumas perspectivas bem interessantes que vão ao encontro do doutorado. Fui conversar com ela, trocar impressões e anotar algumas bibliografias que ela havia citado. Do nada um colega se atravessou na nossa conversa. Falando de outro tema, de outro assunto. Na verdade vindo a contestar uma fala que havia feito anteriormente. Em um desrespeito total a minha opinião, a situação em si e impondo a sua opinião como verdade. Ele pode perfeitamente discordar de minha opinião. O debate é positivo e necessário. Mas há "valores" (não sei ao certo se é esta palavra, precisava ler um pouco mais sobre isto, Foucault fala em discursos) que estão tão cristalizados, engendrados na nossa cultura que permite que um colega se atravesse assim na conversa de duas mulheres, que interrompa a nossa fala e nos imponha a sua verdade. Na ocasião sinalizamos para o colega a sua atitude. Ele não teve, talvez, o alcance da reflexão, mas respeitou a nossa solicitação.
Algo semelhante ocorreu no programa televisivo Roda Vida que entrevistou Manuela D'Ávila, pré-candidata pelo PCdoB à presidência da República. Na situação da Manuela, choveram críticas ao programa e aos participantes, pela atitude machista, desrespeitosa e limitada dos entrevistadores.
E dá uma esperança, porque já é possível observar e apontar essas situações, elas já geram desconforto e já são confrontadas. Talvez há 20 anos atrás isto não aconteceria. Um dos argumentos poderia ser o advento das redes sociais, mas essa é uma discussão para outro post. O que dá esperança é que atitudes machistas estão sendo sinalizadas e combatidas de uma forma mais ampla e eficaz.
E meu coraçãozinho enche de alegria e amor quando vemos jovens meninas romper com isto, existindo pela sua essência e não apenas pela sua condição de ser mulher. De se tornar mulher e ocupar o seu lugar de direito ao sol. Meninas que jogam futebol, que são feras nas Ciências, na Matemática, na Filosofia, em Programação Computacional, na Medicina, na Engenharia. Meninas que ocupam espaços tão tradicionalmente reservado para homens.
E elas estão aí rompendo, questionando, indagando, contrapontando, produzindo novos conhecimento e novas epistemologias para uma nova sociedade. Para que, em um breve futuro, com maior igualdade de gênero, com respeito basilar aos direitos humanos, possamos pleitear as mesmas condições.
E quando vejo essa gurizada arretada me parece que isto não está tão longe do horizonte.
E a esperança retumba feito bateria dentro do peito!


