quarta-feira, 26 de setembro de 2018

E hoje tudo em mim é saudade


26 de setembro. É dia de celebração!
É dia de festa no céu! É dia de festa da saudade no meu coração!
Se viva, hoje minha mãe completaria 72 primaveras.
A saudade bate em mim com violência abissal.
Hoje, minha casa estaria cheia de amigos e amigas. O telefone tocaria incessantemente. Haveria música, gritaria, comilança. Haveria riso frouxo, sorrisos mil.
A casa estaria perfumada, pois haveria flores e plantas de muitas espécies, cores e tamanhos. Flores e plantas compradas em floricultura, compradas no supermercado, mudas caseiras, flores colhidas de algum jardim particular da casa de suas amigas. 
Até hoje temos roseiras em casa. Não houve um dos nossos aniversários que não tenhamos recebido uma rosa da mãe. Essa era uma prática dela, também, com suas amigas. No seu aniversário, suas amigas retribuíam essa gentileza.
Se eu ousar fechar os olhos, acho que consigo me teletransportar para o passado.  Como no poema Infância de Carlos Drummond de Andrade em que, toda a vez que o leio, se fechar meus olhos, sou capaz de sentir o cheiro do café passado. 
Pela manhã, minha avó ligaria, talvez pegasse um táxi correndo para vir abraçar a mãe e lhe presentearia com um pano de prato ou um quadro pintado por ela. Talvez o presente fosse um livro espírita. Junto talvez viesse um ramo de jasmim do quintal da vó. Minha mãe estaria emocionada.
Alcione e Roberto Carlos tocavam pela casa. No final da tarde, quando meu pai chegasse do trabalho, talvez eles dançassem um pouquinho, poucos passos, eu gostava de ver meus pais dançando. A mãe e suas convidadas beberiam Martini; E a gargalhada seria hino. Não havia nada combinado. As pessoas iam chegando, trazendo um prato de comida, se sentavam ao redor da mesa e conversavam entre si. A mãe sempre teve muitos amigos. Amigos de diferentes tribos. Até o carteiro entraria pra comer e tomar algo. 
Mas tudo isto é passado. Do século passado. Tão longínquo que ás vezes custo a acreditar que foi um dia realidade. 
Eu amaria ouvir a voz dela cantando ou chamando meu nome. Amaria sentir seu cheiro, sentir nos meus olhos o peso do seu olhar. Amaria ouvir por um instante a sua respiração. Queria sentar com ela e varar a madrugada: conversar sobre a vida, sobre a mulher que me tornei, as minhas escolhas, as minhas vitórias, as minhas cicatrizes. Compartilhar com ela 20 anos de vida, 20 anos de uma saudade diária, constante. 
Sim, eu tenho a compreensão espírita que apenas habitamos mundos diferentes e que se interpenetram. Que embora eu não a veja com meus olhos mortais, que não a sinta na minha pele, que não consiga ouvir o pulsar ou o seu respirar, eu sei que ela está viva, que ela é presente e que o laço que nos une é indestrutível, porque é amor. Eu também sei que ela é viva em cada um dos meus irmãos. Eu a reconheço neles. 
Fico a imaginar que seu cabelo estaria muito bem escovado e que os ostentaria bem branquinhos.  Que suas unhas estariam pintadas de vermelho combinando com o batom. Certamente estaria de saia e com uma echarpe. Estaria usando Anais Anais, seu perfume favorito. Seguramente teria ganho um vidro do pai. 
É saudade, e ela é avassaladora. 
Sempre que penso nesse sentimento melancólico que é a saudade, lembro da uma HQ da Turma da Mônica. Essa HQ falava sobre o meio ambiente e do sentimento de saudade de um mundo melhor e mais preservado. A HQ terminava afirmando que a gente só sente saudade daquilo que nos fez bem. Que só sentimos saudade dos momentos felizes da vida. 
Dia 26 de setembro sempre foi um dia feliz! 
A poesia do Drummond  termina exatamente com esses dois versos:
" E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé."
Feliz Aniversário, mãe! Amo-te!

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Consejos para la mujer fuerte

Gioconda Belli é  uma das minhas autoras favoritas.  O seu livro La Mujer Habitada é  o MEU livro, livro da minha vida. Já falei dele em algum post aqui no blog. Fez parte do meu corpus ficcional na minha dissertação de Mestrado.
Navegando na rede me deparo com esse maravilhoso poema de sua autoria: Consejos para una mujer fuerte, que foi recentemente publicado no livro Rebeliones y revelaciones.
Pura formosura!

Consejos para la mujer fuerte


Si eres una mujer fuerte
protégete de las alimañas que querrán
almorzar tu corazón.
Ellas usan todos los disfraces de los carnavales de la tierra:
se visten como culpas, como oportunidades, como precios que hay que pagar.
Te hurgan el alma; meten el barreno de sus miradas o sus llantos
hasta lo más profundo del magma de tu esencia
no para alumbrarse con tu fuego
sino para apagar la pasión
la erudición de tus fantasías.
Si eres una mujer fuerte
tienes que saber que el aire que te nutre
acarrea también parásitos, moscardones,
menudos insectos que buscarán alojarse en tu sangre
y nutrirse de cuanto es sólido y grande en ti.
No pierdas la compasión, pero témele a cuanto conduzca
a negarte la palabra, a esconder quién eres,
lo que te obligue a ablandarte
y te prometa un reino terrestre a cambio
de la sonrisa complaciente.
Si eres una mujer fuerte
prepárate para la batalla:
aprende a estar sola
a dormir en la más absoluta oscuridad sin miedo
a que nadie te tire sogas cuando ruja la tormenta
a nadar contra corriente.
Entrénate en los oficios de la reflexión y el intelecto
Lee, hazte el amor a ti misma, construye tu castillo
rodealo de fosos profundos
pero hazle anchas puertas y ventanas
Es menester que cultives enormes amistades
que quienes te rodean y quieran sepan lo que eres
que te hagas un círculo de hogueras y enciendas en el centro de tu habitación
una estufa siempre ardiente donde se mantenga el hervor de tus sueños.
Si eres una mujer fuerte
protégete con palabras y árboles
e invoca la memoria de mujeres antiguas.
Has de saber que eres un campo magnético
hacia el que viajarán aullando los clavos herrumbrados
y el óxido mortal de todos los naufragios.
Ampara, pero ampárate primero
Guarda las distancias
Constrúyete. Cuídate
Atesora tu poder
Defiéndelo
Hazlo por ti
Te lo pido en nombre de todas nosotras.



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Setembro

Esse texto tem me rondado há dias! Há dias tenho ele borbulhando dentro de mim, porém, estava realmente sem tempo para sentar e escrever. Eis que hoje ao chegar em casa eu caí um tombo cinematográfico.  Desse que a gente toma quando criança e acaba virando videocassetada assistida pelo Brasil todo aos domingos. O tombo acabou impossibilitando de fazer minha pedalada e meu treininho funcional. Aproveitei, então, para escrever. 
Setembro é o melhor mês do ano!
Não é o mês do meu aniversário! Contudo, eu tenho preciosas lembranças de setembro.
Setembro é o aniversário da minha mãe. E ela amava o aniversário dela. Era uma celebração, um querbe regado a Martini. Aliás, aprendi a beber Martini com a minha mãe e suas amigas. Setembro iniciava e os preparativos para o aniversário dela também. Minha mãe celebrava suas primaveras no dia 26 e ao longo do mês era telefonemas, conversas preparativos, convites, troca de receitas. A casa passava cheia o dia todo. Todo mundo que chegava trazia um prato de comida. Assim ela celebrava, quem vinha abracá-la não trazia presente, trazia algo para compartilhar. Não tão casualmente, minhas duas  amadas cunhadas celebram seus aniversários em setembro. Uma virginiana e outra libriana.
Setembro também é o mês da Independência do Brasil. Mês de parada cívica. E eu adorava participar dos desfiles. E quando eu finalmente entrei na banda marcial da escola? Era o E V E N T O! Passar as tardes na escola por causa dos ensaios, colocar o uniforme da banda, participar de apresentações. Era um sabor próximo da liberdade. 
A chegada da primavera em setembro, a expectativa da floração, da explosão de perfume e de cor no mundo deixa meu coração acelerado. O mundo fica mais bonito em setembro. 
O dia 18 de setembro tem uma dupla celebração pessoal. Primeiro é a data de inauguração do centro espírita que frequento. Esse ano celebramos 46 anos de existência.  E, há 15 anos, na noite do dia 18, me graduei em Letras pela UFRGS. Foi uma noite linda! Uma noite mágica! 
Para alguns, foi apenas uma formatura, para mim foi a consciência de que se eu, sendo TDAH, conseguia concluir um curso superior, com certo mérito, eu poderia qualquer coisa. 
Quando as pessoas tomam o conhecimento de que possuo TDAH, entendem o porque faço tantas coisas. Mas as pessoas ainda não conseguem compreender o tantão de estratégias que crio pra conseguir fazer meu cérebro render de maneira organizada. E que, por muito tempo, eu me sentia um ET. Mas este é um assunto pra um outro post. 
Em setembro de 2012 iniciou a novela Lado a Lado, na Rede Globo. Essa novela me presenteou com 10 amigas, 10 almas companheiras espalhadas por esse Brasil. Devido a novela conheci essas mulheres da porra em um site em que queríamos saber com antecedência o que aconteceria nos próximos capítulos da novela estrelada pro Marjorie Estiano, Thiago Fragozo e Camila Pitanga. A  bela novela Lado a Lado, falava de amor, e também falava de um amor entre amigas. Natural, normal ou escrito nas estrelas  Hannar, Flávia, Eveline, Héllen, Márcia, Carla, Luiziana, Thais, Trícia e Francielle tornam cotidianamente verdadeiro esse amor entre amigas pelo WhatsApp ou arrumando pretextos para nos encontrar pelo país a fora. 
Em setembro, 3 anos atrás fiz minha primeira corrida de rua.
Num setembro fiz o meu primeiro passaporte e organizei pra ganhar o mundo.
Em setembro do ano passado comecei a mudança que hoje se concretiza na minha vida... 
Esse ano, ao iniciar esse mês, fiz uma playlist do Spotify intitulada: Setembro. 
E claro que a música do Earth, Wind and Fire, September, tá lá. 

Bom, o tombo cinematográfico foi até algo positivo, me fez lembrar um montão de coisas que me fazem feliz há muitos setembros

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Poesia pro dia...

O Livro sobre o nada
Manoel de Barros

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

domingo, 2 de setembro de 2018

Sobre amizades, liberdade e felicidade

Acho que a cada ano que passa tenho chegado mais perto da tal maturidade (ou não, como dirá um bom aquariano). Durante muitos anos eu me sentia como se ainda tivesse 15 anos. Uma eterna adolescente, muito mais reativa do que reflexiva. Não que isto seja algo de todo ruim, mas comecei a buscar quem eu realmente era. O que me mobiliza? o que me afeta? o que me sensibiliza? Talvez a grande pergunta filosófica: Quem eu sou? Talvez essa seja a maturidade, se conhecer e aceitar suas limitações e potencialidades. Não sou perfeita, estou longe disto! Sou desfocada, aérea, desatenta, esquecida, desorganizada, impulsiva, reativa, falo palavrão pra caralho, falo alto. Sou muito introspectiva, muito dentro do meu mundo. A maioria das vezes, eu nem percebo situações. E eu preciso me sentir livre, genuinamente livre.
Essa semana, um aluno que gosto muito (nem ele tem a dimensão do quanto eu gosto dele), me perguntou porque eu não era casada. E talvez seja aí o porque eu gosto muito dele, porque no melhor estilo Escritores da Liberdade, este aluno fez comigo o que a professora Erin faz com seu aluno André, em uma das cenas mais lindas do cinema, a professora diz para o aluno: Eu te vejo. O meu aluno me viu. 
A pergunta dele não era apenas superficial. E isto me sensibilizou. Ele não queria saber porque tantas pessoas casam, e eu não havia casado. Ele queria saber porque a liberdade era tão importante pra mim. Porque pertencer às pessoas, necessariamente, não quer dizer estar sempre junto, ter uma rotina, um cotidiano. E foi um papo bem legal, porque mais alunos sentaram perto e ficamos meio período falando sobre relações, sobre identidade, amizades e o amor num sentido amplo. Amar é deixar livre. Nesse papo, rendeu outro, pois um outro aluno (que também gosto muito, é um guri especial, de cabeça boa e de bom coração - eu levo muita fé nessa gurizada), pediu pra conversar comigo em particular. Queria me contar sobre situações com a namorada. Coisas pequenas, mas quando se é adolescente toma uma proporção gigantesca. Talvez essa tenha sido uma das melhores aulas que dei. Porque houve algo tão necessário no mundo de hoje, reconhecer o outro e reconhecer-se no outro. No momento eu era a professora deles, mas também um ser humano de saberes, de vivido, de troca, de comunhão. Houve ali um momento de profundo afeto e amizade. 
E os meus afetos passam pelas amizades que cultivo. 
Meus irmãos  e meus amigos são meu esteio. São meu eixo e meu mundo. Essa semana eu senti muita falta dos meus irmãos, falta do cheiro, do abraço, da voz, do sorriso, da risada. Eu tenho muitos irmãos e muitos amigos  (GRAÇAS A DEUS). Tenho amigos pequenos. Tenho amigos velhos, tenho amigos de todas as cores e idades. De diferentes classes sociais.  De diferentes profissões. Preciosos amigos espirituais. Amigos que vejo sempre, amigos que faz tempo que não vejo. Amigos que vivem do outro lado do mundo. Amigos que eu ainda nem conheci. 
E, talvez, essa seja um indício de maturidade, cultivar amizades. Porque escolho aproveitar meu tempo, compartilhar vida com eles.
Passei um pedaço do final de semana em Torres com um grupo de amigas que se tornaram eixo gravitacional na minha vida. Somos todas professoras, trabalhamos todas na RME de Porto Alegre. Algumas conheço há muitos anos, antes mesmo de entrar na prefeitura de POA. Todas nos reencontramos quando orientadoras do PACTO pela Alfabetização na Idade Certa em 2014. E, desde 2015, sem falhar, nos encontramos religiosamente todos os meses. Não importa se tem greve dos caminhoneiros ou chuva de meteoros ou se estamos em outro continente, temos encontro do PAQUITO.  A relação que construímos é de sanidade e afeto. Fazemos novas articulações, engenharia temporal e familiar, mas nos encontramos. Porque é uma relação de amizade, de afeto, de sororidade, de companheirismo, de amizade. É uma relação de amor. Porque nosso encontros mensais de 2h ou 3h, é estarmos bem. Olho nossas fotos juntas e tem um brilho especial, uma energia que transcende, um sorriso mais autêntico. Um momento mais feliz de vida, um momento de liberdade. 
Amar é ser livre. 
Eu estou bem com as escolhas que tenho feito pra minha vida. Sejam elas profissionais, pessoais, políticas. E acho que isto é maturidade. Saber o porquê, entendê-lo, escolhê-lo e aceitá-lo.
Sou feliz com a pele que visto. Sou feliz com a vida que tenho. Sou feliz com os amigos que tenho. Sou feliz. Sou livre. E isto é imensidão.