26 de setembro. É dia de celebração!
É dia de festa no céu! É dia de festa da saudade no meu coração!
Se viva, hoje minha mãe completaria 72 primaveras.
A saudade bate em mim com violência abissal.
Hoje, minha casa estaria cheia de amigos e amigas. O telefone tocaria incessantemente. Haveria música, gritaria, comilança. Haveria riso frouxo, sorrisos mil.
A casa estaria perfumada, pois haveria flores e plantas de muitas espécies, cores e tamanhos. Flores e plantas compradas em floricultura, compradas no supermercado, mudas caseiras, flores colhidas de algum jardim particular da casa de suas amigas.
Até hoje temos roseiras em casa. Não houve um dos nossos aniversários que não tenhamos recebido uma rosa da mãe. Essa era uma prática dela, também, com suas amigas. No seu aniversário, suas amigas retribuíam essa gentileza.
Se eu ousar fechar os olhos, acho que consigo me teletransportar para o passado. Como no poema Infância de Carlos Drummond de Andrade em que, toda a vez que o leio, se fechar meus olhos, sou capaz de sentir o cheiro do café passado.
Pela manhã, minha avó ligaria, talvez pegasse um táxi correndo para vir abraçar a mãe e lhe presentearia com um pano de prato ou um quadro pintado por ela. Talvez o presente fosse um livro espírita. Junto talvez viesse um ramo de jasmim do quintal da vó. Minha mãe estaria emocionada.
Alcione e Roberto Carlos tocavam pela casa. No final da tarde, quando meu pai chegasse do trabalho, talvez eles dançassem um pouquinho, poucos passos, eu gostava de ver meus pais dançando. A mãe e suas convidadas beberiam Martini; E a gargalhada seria hino. Não havia nada combinado. As pessoas iam chegando, trazendo um prato de comida, se sentavam ao redor da mesa e conversavam entre si. A mãe sempre teve muitos amigos. Amigos de diferentes tribos. Até o carteiro entraria pra comer e tomar algo.
Mas tudo isto é passado. Do século passado. Tão longínquo que ás vezes custo a acreditar que foi um dia realidade.
Eu amaria ouvir a voz dela cantando ou chamando meu nome. Amaria sentir seu cheiro, sentir nos meus olhos o peso do seu olhar. Amaria ouvir por um instante a sua respiração. Queria sentar com ela e varar a madrugada: conversar sobre a vida, sobre a mulher que me tornei, as minhas escolhas, as minhas vitórias, as minhas cicatrizes. Compartilhar com ela 20 anos de vida, 20 anos de uma saudade diária, constante.
Sim, eu tenho a compreensão espírita que apenas habitamos mundos diferentes e que se interpenetram. Que embora eu não a veja com meus olhos mortais, que não a sinta na minha pele, que não consiga ouvir o pulsar ou o seu respirar, eu sei que ela está viva, que ela é presente e que o laço que nos une é indestrutível, porque é amor. Eu também sei que ela é viva em cada um dos meus irmãos. Eu a reconheço neles.
Fico a imaginar que seu cabelo estaria muito bem escovado e que os ostentaria bem branquinhos. Que suas unhas estariam pintadas de vermelho combinando com o batom. Certamente estaria de saia e com uma echarpe. Estaria usando Anais Anais, seu perfume favorito. Seguramente teria ganho um vidro do pai.
É saudade, e ela é avassaladora.
Sempre que penso nesse sentimento melancólico que é a saudade, lembro da uma HQ da Turma da Mônica. Essa HQ falava sobre o meio ambiente e do sentimento de saudade de um mundo melhor e mais preservado. A HQ terminava afirmando que a gente só sente saudade daquilo que nos fez bem. Que só sentimos saudade dos momentos felizes da vida.
Dia 26 de setembro sempre foi um dia feliz!
A poesia do Drummond termina exatamente com esses dois versos:
" E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé."
Feliz Aniversário, mãe! Amo-te!
