terça-feira, 10 de julho de 2018

É preciso fazer alguma coisa

É preciso fazer alguma coisa
Thiago de Mello


Escrevo esta canção porque é preciso. 
Se não a escrevo, falho com um pacto 
que tenho abertamente com a vida. 
E é preciso fazer alguma coisa 
para ajudar o homem. 
Mas agora. 
Cada vez mais sozinho e mais feroz, 
a ternura extraviada de si mesma, 
o homem está perdido em seu caminho. 
É preciso fazer alguma coisa 
para ajudá-lo. Ainda é tempo. 
É tempo. 
Apesar do próprio homem, ainda é tempo. 
Apesar dessa crosta que cultivas 
com amianto e medo, ainda é tempo. 
Apesar da reserva delicada 
das toneladas cegas mas perfeitas 
de TNT pousada sobre o centro 
de cada coração — ainda é tempo. 

No Brasil, lá na Angola, na Alemanha, 
na ladeira mais triste da Bolívia, 
nesta poeira que embaça a tua sombra, 
na janela fechada, no mar alto, 
no Próximo Oriente e no Distante, 
na nova madrugada lusitana 
e na avenida mais iluminada 
de New Yoirk. No Cuzco desolado 
e nas centrais atômicas atônitas, 
em teu quarto e nas naves espaciais 
— é preciso ajudá-lo. 
Nas esquinas 
onde se perde o amor publicamente, 
nas cantigas guardadas no porão, 
nas palavras escritas com acrílico, 
quando fazes o amor para ti mesmo. 
Na floresta amazônica, nas margens 
do Sena e nos dois lados deste muro 
que atravessa a esperança da cidade 
onde encontrei o amor 
— o homem está 
ficando seco como um sapo seco 
e a sua casa já se transformou 
em apenas local de seu refúgio. 

Lá na Alameda de Bernardo O′Higgins 
e no sangue chileno que escorria 
dos corpos dos obreiros fuzilados, 
levados para a fossa em caminhões 
pela ferocidade que aos domingos 
sabe se ajoelhar e cantar salmos. 
Lá na terra marcada como um boi 
pela brasa voraz do latifúndio. 

Dentro do riso torto que disfarça 
a amargura da tua indiferença, 
na mágica eletrônica dourada, 
no milagre que acende os altos-fornos, 
no desamor das mãos, das tuas mãos, 
no engano diário, pão de cada noite, 
o homem agora está, o homem autômato, 
servo soturno do seu próprio mundo, 
como um menino cego, só e ferido, 
dentro da multidão. 
Ainda é tempo. 
Sei por que canto: se raspas o fundo 
do poço antigo da tua esperança, 
acharás restos de água que apodrece. 
É preciso fazer alguma coisa, 
livrá-lo dessa situação voraz 
da engrenagem organizada e fria 
que nos devora a todos a ternura, 
a alegria de dar e receber, 
o gosto de ser gente e de viver. 

É preciso ajudar. 
Porém primeiro, 
para poder fazer o necessário, 
é preciso ajudar-me, agora mesmo, 
a ser capaz de amor, de ser um homem. 
Eu que também me sei ferido e só, 
mas aconchego este animal sonoro 
que reina poderoso em meu peito. 

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