sábado, 23 de junho de 2018

Doutoranda

Saiu o resultado. Pensei que era apenas em julho.
 Passei na seleção para o Doutorado na UFRGS.
A UFRGS foi eleita a melhor universidade do país. O Programa de Pós Graduação em Letras da UFRGS recebeu a nota 7, a nota máxima da CAPES. Meu orientador além de ser um cara super bacana, é um ser humano íntegro e um baita cabeção em  pós-colonialismo. Um cara competentíssimo.
Eu estou muito feliz! Feliz pra caramba! Feliz pra caralho!
Eu sou a filha de uma negra com um branco, sou neta de um sapateiro e de uma lavadeira que vieram de Pelotas fugindo da fome e da pobreza e em busca de novas oportunidades. Meus pais sempre estimularam em mim o gosto pelo estudo e pela leitura. O quintal da minha casa era uma biblioteca pública. Cresci ouvindo minha mãe dizer que quando eu lia o mundo parava (e o pior que parava mesmo!). Eu lembro que quando fiz vestibular a primeira vez, meio sem saber o que fazer, segui a orientação da minha mãe e fiz pra jornalismo. Depois fiz pra medicina (estudei muito, estudei pra caramba, mas não era o que eu queria, fiz para agradar meu pai). Comecei a trabalhar e minha mãe me intimou para fazer o vestibular novamente, e eu disse que não faria, afinal já estava trabalhando. Ela me perturbou pra fazer o vestibular. Usei várias desculpas e uma delas era a de que não tinha dinheiro pra pagar a inscrição. Minha mãe me disse: eu pago. Então repliquei que faria para o que eu realmente queria: Letras. Minha mãe daquele jeitão dela encerrou a conversa dizendo: "faça para o que tu quiser, mas vais entrar na universidade". Lembro que quando passei, em 1996, ela estava toda orgulhosa porque seríamos colegas na UFRGS. Minha mãe entrou na universidade em 1990, aos 44 anos. Eu entro no doutorado aos 42. Quem sabe meus sobrinhos tenham terminado o PhD antes dessa idade. Não que esse título seja o importante. O importante é rompermos com um discurso que mantém o pobre sempre pobre, que mantém nossas mentes e potenciais acorrentados ao não pode, ao não consegue, ao não merece ou ao pensamento de uvas verdes da raposa na fábula do Esopo: eu nem queria mesmo.  Romper com isto exige de mim um esforço constante de superação, de disciplina, de organização e de muito estudo. Precisamos agarrar nossos sonhos com garras afiadas e não largá-los.
Sempre soube que seria professora. Nunca houve em meu coração outro desejo que não fosse dar aulas. Sou oriunda da escola pública, fiz o magistério numa escola estadual. Entrei na universidade federal, e lá fiz minha graduação e meu mestrado. Faço a minha segunda graduação, em Filosofia, também na universidade pública. Sou funcionária pública. Embora nesse país há o pensamento tacanha e burro de que se é público é de péssima qualidade, procuro sempre me especializar, aprender, melhorar, para oferecer a população de Alvorada e de Porto Alegre um serviço de excelência. Tenho colegas maravilhosos que realizam um trabalho muito melhor que muita escola particular. Tenho colegas premiados nacional e internacionalmente. 
Eu queria poder apenas estudar mas, infelizmente, não posso. Preciso trabalhar pra pagar as contas ao final do mês. E que bom que posso trabalhar e estudar. Que bom que posso ainda em sala de aula estimular as minhas alunas e meus alunos a estudarem. Quando celebrei com eles minha conquista alguns nem sabiam do que eu falava. Outros vibravam como se fosse um gol da seleção e em duas meninas vi o olho brilhar, pois de alguma forma sabiam que eu cheguei onde gostaria de chegar, que conquistei o que eu havia desejado. Porque percebem que estudar para mim é libertador. A literatura pra mim é amor, é gozo, é vida.
É isto: me sinto viva, pulsante!
Estudar o que estou me propondo, Pós-colonialismo e Identidades, e estudar autoria feminina é uma forma de resistência e de militância. Resistência, porque produzimos conhecimento contestando epistemologias canônicas de que ex-colônias serão sempre colônias. Que a produtividade de ex-colônias nada mais são do que cópias grosseiras do que a Colônia produz. E militância porque há gerações que precisam aprender a olhar o outro, a desenvolver empatia pelo outro e por isso é necessário reconceituar categorias como raça, gênero, trabalho, produção artística, entre outras.
Meu projeto de estudo está baseado em duas obras: Hibisco Roxo da Chimamanda Adichie e em Infiel da Ayaan Hirsi Ali. Duas obras díspares, um romance e uma autobiografia, de dois países com trajetórias diferentes, Nigéria e Somália, abordando duas religiões em oposição, catolicismo e islamismo e, mesmo assim, tão semelhantes quando descrevem a mulher negra em uma realidade pós-colonial. Que sujeito é esse? que autoria é essa? Que voz é essa que lhes dá condição de existir?
Bora lá estudar, pra tentar responder essas perguntas e mais algumas!

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