Agora que terminou a loucura da seleção pro Doutorado voltei a ler por fruição. Em maio, no FestiPOAliterária, assisti a fala da Conceição Evaristo (escritora mineira, negra e de grande representatividade na literatura brasileira feminina contemporânea) e fiquei muito curiosa. Recentemente a autora se tornou oficialmente candidata a Academia Brasileira de Letras. E isto é de uma força política e social brutal. Tomara que seja eleita.
Achei a fala dela mansa e suave, mas de uma grandiosidade resplandecente.
Como andava sem tempo pra ler na ocasião do FestiPOA optei comprar um livro de contos, curto e cujo nome, Olhos D'Água, nomeia também um documentário sobre a sua vida.
Cada conto conta a história de uma indivíduo - a maioria mulheres - periférico, pobre, favelado e a maioria deles negros.
Ainda reverbera dentro de mim o conto o Cooper de Cida. Uma mulher que corre no calçadão de Copacabana, que corre da vida, até que se da conta que precisa desacelerar, desfrutar, ver o mar. Interessante o nome do conto, pois ao mesmo tempo que cida relembra a Nossa Senhora Aparecida, é um sufixo relacionado a morte: homicida, bactericida, etc. Morte e vida. E o conto fala sobre isto, morte em vida e a vida que surge após uma morte simbólica. Deixo abaixo uma parte do conto que é pura poesia.
"Aumentara vertiginosamente o hábito de correr. Todas as manhãs, os pés de Cida pisavam rápido o calçadão da praia. Iam e vinham em toques rápidos e furtivos, como se estivessem envergonhados dos carinhos que o solo pudesse lhes insinuar no decorrer da marcha. A moça imprimia mais e mais velocidade a sua louca e solitária maratona. Corria contra ela própria, não perdendo e não ganhando nunca. Mas, naquele dia, a semidesperta manhã inundava Cida de um sentimento pachorrento, de um desejo de querer parar, de não querer ir. Sem perceber, permitiu uma lentidão aos seus passos, e pela primeira vez viu o mar. A princípio, experimentou uma profunda monotonia observando os movimentos repetidos e maníacos das ondas. Como a natureza repetia séculos e séculos, por todo o sempre, os mesmos atos? O dia raiar, a noite cair, o sol, a lua... O mar magnânimo lavando repetidamente, a curtos intervalos, a areia circundante. Tudo monótono, certo e previsível. Tão previsível como os principais atos dela: levantar, correr, sair, voltar. Contemplou os rostos que passavam, conhecia todos de relance. Todas as manhãs topava com aquelas faces suadas diante de si. Assustou-se. Percebeu que não estava correndo. Estava andando em câmera lenta, quase. Sentiu a planta dos pés, mesmo guardada nos tênis, tocando o solo. Estava andando, parando, andando, parando, parando. Todos os seus membros estavam lassos, só o coração batia estonteado. Cida levou a mão ao peito. Sentiu o coração e os seios. Lembrou-se de que era uma mulher e não uma máquina desenfreada, louca, programada pra correr. Envergonhou-se dos orgasmos premeditados, cronometrados que vinha cultivando até ali. Ela não se entregava nunca e repudiava qualquer gesto de abandono que alguém pudesse ter diante dela. A corda bamba do tempo, varal no qual estava estendida a vida, era frágil, podendo se romper a qualquer hora. Era preciso, pois, um constante estado de alerta. O mar movimentou-se, novamente num gesto aliciante e convidativo. Cida abandonou o calçadão e encaminhou-se para a areia. Sentiu necessidade de arrancar os tênis que lhe pendiam os pés e deixou aquelas correntes abandonadas ali mesmo. Afundou os pés na areia e contemplou mais uma vez o mar. "
A imagem da mulher que simplesmente para de correr e disfruta do mar me arrepia.
E esta frase: "A corda bamba do tempo, varal no qual estava estendida a vida, era frágil, podendo se romper a qualquer hora." é pura poesia!
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